E-mails incompletos que nunca serão enviados: Amiga

Eu disse que escreveria, não disse?

Por mais que seja perigoso, como muitas outras coisas em você, eu escrevo. É muito fácil dar sangue para as suas rosas, sufocar dois ou três calores em sua pele macia, confundir o ar e os gestos de sua alma com a fumaça de meu cigarro. Com a fumaça deste quarto escuro. Suave e diáfano é o limiar onde as crianças dormem e os gemidos rasgam. Mas não é disso que eu quero falar — são mais do que palavras, como sempre.

Este é o segredo que muitas temem e muitos ignoram: quando uma mulher é genuinamente afeiçoada, seus cabelos não importam; as mechas são meros símbolos, e não a coisa simbolizada. Algumas fazem mau uso desse artifício, mas você conhece melhor os traços que a desenham. É um ruído maior do que raiva ou valentia; é o seu espírito reconhecendo a si mesmo.

É assim que pisa o primeiro reconhecimento. A franja tropeça e engana-se sobre a sua fronte, tal como da flama a ponta que, pura e provocada, conduz o incêndio na casa de todos os sonhos. Na casa de todos os sonhos, onde tudo é armamento — e você é a arma perfeita. As sobrancelhas finas como respiração de gato; os olhos desconfiados como cadafalsos-em-espelhos; os lábios rosados de veneno e marrasquino.

Amor, lembra que o coração da beleza chama-se simplicidade, e olha no espelho: as suas linhas não se emaranham. Serenidade dá nome a um só véu hiemal — de contorno tão sutil e delicado, que mesmo um soluço de anjo seria demasiado vulgar para lhe acariciar.

E seu nariz. Seu nariz…

(…)

E, no fim, é disto que eu desconfio. Nós nos oferecemos, um ao outro, algo além do que os nossos orgulhos poderiam comprar. O mesmo orgulho e vaidade que faz a raposa desdenhar e morrer sozinha. Não tem importância: quando a raposa morrer, aproximo de esguelha e, fechando os olhos do mundo, deixo lágrima e carinho.

1 comentário » | 100118Seg2008 | anotações

Setenta

Com setenta mil reais, eu poderia…

• Conseguir toda bugiganga eletrônica que surgisse e me interessasse durante os próximos quatro anos, incluindo desktops, notebooks, celulares e videogames. Ou montar o meu computador pessoal dos sonhos.

• Conhecer desapressadamente muitos e ótimos restaurantes europeus ao longo de dois ou três meses perfeitamente desprovidos de preocupações. Ao longo de um mês, se com acompanhante.

• Alimentar duzentas famílias do Zimbábue por um ano.

• Contratar os serviços de uma dezena de trupes de teatro amador para pregar uma grande e elaborada peça em todas as pessoas que estivessem passando pela Avenida Paulista. Ou pregar uma grandiosa e elaboradíssima peça em uma única pessoa.

• Organizar um memorável jantar aos meus amigos mais próximos, com direito a piscina de bolinhas, sobremesa à vontade e motorista para buscar e levar cada um deles à sua casa.

• Montar e equipar uma cozinha quase impecável.

• Presentear dois amigos com um lança-chamas portátil de classe militar. O terceiro é para mim. (Ou cem máscaras de gás de classe militar, e entrar correndo e distribuí-las desesperadamente aos clientes de um restaurante ou de uma sala de concerto, gritando: “Rápido! Rápido!”)

• Obter, de modo legal, a versão digital de todas as músicas que eu gostaria — incluindo jazz e erudita.

Viver nas ruas por quinze anos ou mais, sem precisar trabalhar ou pedir esmolas.

• Adquirir um piano ou um violino decente e ter um ano de aulas com um professor igualmente decente.

• Fazer uma cirurgia plástica para ficar completamente irreconhecível, comprar alguns documentos falsos e começar uma nova vida em outro país, a partir do zero. Islândia, talvez.

… em vez de comprar um carro.

14 comentários » | 091217Qui0431 | anotações

Ignotos

Algo que me intriga profundamente são os trechos intermediários de determinados processos evolutivos. É sempre o meu primeiro exemplo a Dionaea muscipula, também conhecida como “dioneia” ou, mais comumente, “planta carnívora“.

O procedimento através do qual a dioneia consegue imobilizar e consumir vítimas é complexo. É algo supostamente assim. Quando seus cílios internos são tocados rapidamente em sucessão, o potencial elétrico das membranas de suas células é alterado, enviando a outras células um estímulo que acaba por liberar a energia armazenada na elasticidade entre as folhas. Se a vítima permanecesse tranquila, as mandíbulas lentamente se abririam outra vez; mas o estímulo contínuo dos cílios internos faz com que a dioneia reforce a mordida e produza enzimas digestoras. Ao fim de dez dias, a presa é completamente digerida.

Então a planta está ali, em um solo pobríssimo de minerais e nutrientes. Para sobreviver, ela precisa de fontes complementares de energia. A seleção natural faz com que somente as plantas mais adaptáveis e suas respectivas proles consigam-se multiplicar. Como tornamos carnívora esta simples planta ao longo de alguns milênios, munindo-a simultaneamente de inúmeros mecanismos que a ajudarão a capturar e digerir insetos?

A variação genética pode fazer com que algumas plantas desenvolvam folhas largas e dentadas, mas de nada adianta se essa estrutura não é acompanhada por um protótipo de cílios sensíveis a movimento e enzimas capazes de dissolver proteína. Por outro lado, seria fortuito demais que todas essas características tenham surgido ao mesmo tempo.

Uma teoria que talvez possa justificar a construção da dioneia é a da exaptação: quando um traço serve a uma determinada função e, posteriormente, acaba por adquirir uma nova e distinta função. Talvez as folhas dentadas não servissem para capturar insetos, ou talvez os cílios meramente detectassem chuva1.

1 Aliás, é curioso observar que a vasta maioria das plantas não consegue distinguir quando está ou não chovendo — a própria chuva, que é um evento tão essencial à sua existência. É muito tentador insinuar qualquer metáfora similar com a condição humana.

Se insetos mortos tinham mais chances de cair sobre as suas folhas alargadas, a seleção natural pode ter favorecido as protodioneias que fechassem lentamente suas quase-mandíbulas, até por fim dar origem às dioneias. Não é a pior explicação possível, mas ainda é o suficiente para eu às vezes ter pena dos cientistas ateus.

1 comentário » | 091214Seg0529 | digressões

A beleza medial

Outro dia, enquanto eu estava no metrô, ouvi duas jovens adultas conversando. Uma delas falava animadamente de um rapaz — um conhecido em comum às duas, que atendia a praticamente todas as suas expectativas — para então suspiroconfessar: “Ah, se ele fosse dez centímetros mais alto…”

Ao que sua amiga respondeu prontamente, com uma sinceridade de erguer-me as sobrancelhas: “No que isso mudaria a sua vida?” É claro que eu sorri — não só porque minha estatura é sofrível, mas também porque é incomum alguém menosprezar aparências. É mais do que o inesperado non sequitur. Se a amiga estivesse preocupada em transmitir uma imagem descompromissada, ela diria algo fático ou retórico como “e o que é que tem?” Mas “no que isso mudaria a sua vida?” é uma pergunta séria, de tons e implicações.

Não escutei a resposta, se é que houve, mas a pergunta foi o suficiente para me intrigar. É claro que ela quis dizer: “Você está sendo irrazoável”, mas o que aconteceria se a entendêssemos literalmente? Em que a aparência física de uma pessoa, particularmente a daquela que escolhemos ou aceitamos como nosso par, pode mudar a nossa vida?

Essa é uma pergunta de nuanças e profundidades sortidas. Alguns estudos associam a beleza de uma pessoa de modo proporcional ao seu salário; outros, à sua saúde; outros, à sua inidoneidade. É natural que a aparência física de uma pessoa esteja vinculada às consequências de sua existência, e todas essas características hão de influenciar diretamente uma eventual vida futura em comum.

Sob o risco de, tal como o restante da humanidade, incorrer em vaidade e lascívia, eu não escuto as pessoas que dizem: “O que importa é a beleza interior.” Esse é um ponto do qual devemos nos livrar o quanto antes. A beleza interior tem muitas funções, mas não serve às relações afetivas: quantas mulheres podem-se dizer em busca do homem íntegro, quantos homens podem-se dizer em busca da mulher inteligente? Mera questão bioestatística: supondo que o comportamento humano tenha herança ainda que parcialmente genética, se beleza interior fosse minimamente relevante à escolha do parceiro, não teríamos mais ladrões ou assassinos no mundo. Não teríamos mais sequer pessoas infiéis.

Se evitarmos chafurdar nos chãos crus e pegajosos da seleção natural, a mim me parece que seja um equilíbrio entre a beleza física e a espiritual a exercer poder sobre as relações: a parte do comportamento superficial que é moldada por ambos. Está claro que a nossa aparência física também orienta nossas ações e torna-nos a pessoa que somos; vide, por exemplo, os altos índices de suicídio entre os anões.

São as afabilidades subcotidianas que imperam as relações humanas. O corte um milímetro mais profundo do que a superfície — aqueles trechos de pseudoepifania em que, não fazendo parte de um mundo ou de outro, o menino descobre algo que já foi descoberto milhões de gerações atrás: a única árvore da floresta.

7 comentários » | 091207Seg0606 | digressões

Semana

Semana ocupada. Já atualizo.

2 comentários » | 091203Qui0338 | comunicações

O que fazer na internet

Eis um aspecto da adolescência que ainda não abandonei: se todo dia eu fosse forçado a passar muitas horas na internet, provavelmente não me importaria.

A carga do conhecimento e do entretenimento humano já alcançou o seu ápice de sustentação individual: se uma pessoa, a partir de sua alfabetização, dedicar sua vida inteira a exclusivamente absorver erudição e diversão, não conseguirá esgotar qualquer dos dois. É como tentar beber um oceano que se multiplica a cada segundo.

Mas a verdade é que vasta parte da realidade meramente não nos interessa. Quantos estão interessados em entender como funciona um motor a combustão, quais são as proteínas que fazem as asas da libélula agitarem-se, ler os versos do mais famoso poeta húngaro? Ainda assim, há muitos interesses que nos podem ser universais — ou, na pior das hipóteses, universalmente benéficos. Seguem minhas sugestões.

1. Se você já não sabe, aprenda inglês. Inglês é a língua da internet e, por bem ou por mal, ele abrirá muitas portas. Os livros clássicos e gratuitos, as notícias, as receitas, os ensaios, as opiniões, o mundo: considerável parte disso está em inglês.

Leia artigos do Wikipedia em inglês simples ou notícias da BBC voltados para estudantes de inglês, sobre assuntos que você já conhece; ouça músicas, acompanhando as letras, com um dicionário ou outro em mãos; consulte os inúmeros sites com dicas gramaticais ao largo da internet (como este ou este), se necessário.

2. Aprimore sua erudição. Você pode baixar e ler trinta mil livros no Project Gutenberg, estudar detalhadamente mais de vinte mil pinturas e esculturas europeias no Web Gallery of Art, assistir a milhares de horas de documentários em dezenas de categorias diferentes no Documentary Heaven.

Não diga “eu gosto de museus”; visite-os. Para visualizar fotografias antigas, folhear mapas de séculos, vislumbrar manuscritos originais, temos o World Digital Library, apoiado pela Unesco. (Também em português.) Para ter acesso a mais de dois mil audiobooks em diversas línguas, visite o Librivox. Música erudita pode ser encontrada no Musopen.

3. Interaja com o inferno. As oportunidades de encontrar e conversar com pessoas das mais diversas culturas são infinitas. Encontrar pessoas com os mesmos interesses que você, para organizar eventos ou encontros, trocar informações e experiências, enriquecer seus contatos. Há salas de bate-papo, fóruns dos mais diversos assuntos e sites voltados para os públicos mais específicos e inimagináveis. Não importa quão bizarras sejam suas fantasias — há milhares de outras pessoas com as mesmas perversões, e cada vez mais elas estão em maior número na internet. Você não é único; junte-se à chuva e corra pela montanha.

4. Vaze sua mente. Faça uso de seu computador e a inacreditável facilitação que ele proporciona ao seu potencial criativo. Escreva. Desenhe. Componha. Projete. Edite espiraladamente. Faça com que sua voz perca-se em meio à voz da multidão, entrelaçando sua existência ao organismo vivo e pulsante da humanidade.

5. Acumule cultura inútil. Eu não sei nem por onde começar.

Independente do que você faça, não se esqueça: o singular culpado pelo seu tédio é a sua própria preguiça. E mesmo que você esteja com preguiça, também há um clube para isso.

4 comentários » | 091126Qui0457 | exposições

Conto: Onde, Aonde, Onde

Onde, Aonde, Onde
por Calebe

É o calor que me deixa melancólico, não é? Quando a noite está quente assim, eu gosto de sentar-me à sacada do apartamento. Outro condomínio bloqueia a vista, e por isso não consigo perder meu olhar no horizonte, mas juntos os dois prédios empenhascam um pequeno corredor de vento. É bom porque refresca. No fim, nós nos contentamos com vento — essa asa movediça de absolutamente nada — e silêncio.

O silêncio torpe, muflado, murmurado de vergonhas vazias e tão infantis. A gente se esforça, mas ninguém consegue. Se eles soubessem. Se nós soubéssemos.

Esta cadeira é confortável e eu não tenho preocupações. O amanhã… Amanhã é sábado. O limbo é o lugar em que deixamos de existir. As frases liquefeitas que não conseguimos despejar no vaso da voz, na esponja do coração, não as dissemos porque não as podíamos, porque não é assim que funciona: não é assim que funcionam as tragédias sem importância.

O que na vida logrei realizar? Tive pais e amigos; lar e profissão; edredons e amantes. Os bons momentos, como eles ficam bonitos nas prateleiras da sala de estar. Não tenho a quem mostrá-los, mas eu espano o pó — não me rendi àmargura. Toda vez que a esposa finge existir, eu finjo aninhá-la tão cuidadosamente. Eu sou muito cuidadoso. Não tenho cicatrizes, exceto as de propósito.

A noite está quente, mas está em paz e bonita. Frio é morte; calor é comatose. Os reflexos azulados a intermitir nas janelas dos vizinhos são as televisões ligadas. Apreende-me o pensamento de que, a cada uma delas, alguém assiste: quantas pessoas sentam-se sozinhas em seus sofás, com o pedaço de vidro em seus olhos? Não somos, não podemos ser, para sentarmo-nos sós.

“Mas nós nunca estamos juntos”, dizem as margens do penhasco. Do que vocês estão falando? Pois se é a separação da unidade que cria a realidade: a nucleossíntese estelar da Grande Explosão, a divisão entre o céu e a terra de Javé. Solidão, por definição, não pode deixar de existir; alguém tem de ficar com ela. Será que os apaixonados sabem que o resto da humanidade paga o seu preço?

A noite está calma e escura; continua quente. Aqui é tão alto.

3 comentários » | 091124Ter0433 | composições

Covarde

Vamos recortar a mandíbula com uma tesoura: as duas lâminas abrem caminho através das bochechas, e pele e carne não oferecem resistência, mas é preciso persistência para separar nervos e músculos. A tarefa não pode ser perfeitamente executada, e talvez seja preciso quebrar as pontas da ferradura antes de terminar de desprender o queixo do pescoço e arrancar o maxilar. Assim, ao arrastar a pessoa em alta velocidade pela perna, os dentes da arcada superior são rapidamente degradados e estilhaçados no asfalto. Podemos insistir no deslizamento até a gengiva virar uma massa púrpura e ensujeirada. Não, não uma guilhotina, mas um machado afiadíssimo para, com golpes muito fortes e firmes, decepar os braços pedaço a pedaço, centímetro a centímetro — é claro que precisamos vendar os olhos, para manter o suspense do próximo golpe. Prender os pés em um mecanismo que os torça e os retorça até não poderem mais: os ossos são descolados, os músculos são estalados, os tendões são rasgados. A carne é torcida até terminar de se romper em fitas, como uma vidraça que cai de pé sobre o pântano de tecido vermelho. Usar um isqueiro para pacientemente cavocar pequenas queimaduras de terceiro grau ao longo do abdômen, matando o nervo, tostando a carne e borbulhando a gordura, uma cova negra por vez: perfeito para fincar o dedo e fazer a pele queimada deslizar e descolar sobre a graxa humana amarelada com nódoas escarlates. Quebrar o osso da perna e enfiar o fêmur farpado em um dos olhos, esfregando a medula no humor vítreo; experimentar da concocção amarga na ponta da língua e escarrar na órbita vazada. Prender um pequeno número de anzois no outro olho: e não fisgar os anzois, mas lá deixá-los indefinidamente. Empalar com uma fina lança envolta por arame farpado em brasa viva e então apontar e gargalhar até a morte! Decapitar para violentar o esôfago ainda morno de sangue, e finalmente abrir a caixa torácica para forçada e descuidadamente retirar os pulmões e defecar sobre o coração, esse miserável mendigo.

Eu teria medo se fizessem essas coisas comigo.

3 comentários » | 091121Sab0427 | autodigestões

Planos para 2010

Esse tipo de lista é sempre vilipendiado, muitas vezes com razão. Vamos ver se consigo colocá-la em prática; peço que os amigos, sempre que dispostos, cobrem minha palavra — ainda que, se tudo correr como o planejado, isso não será necessário.

• Praticar violino ou piano. Levar o meu violino a um luthier para reajustá-lo apropriadamente (depois de sofrer uma negligente troca de cordas) é mero detalhe. Ainda não defini o horário de prática, mas pretendo dedicar ao menos uma hora diária a ele. Com sorte e dedicação, até o fim do ano já saberei tocar “Brilha, Brilha, Estrelinha” decentemente. Minha alternativa é prosseguir com o piano.

• Comprar um carro. Quando eu era criança, pensava constantemente: “Coitado dos adultos. Eles são obrigados a fazer tantas coisas chatas, como ir ao banco.” Analogamente, dirigir um carro é uma responsabilidade que não consigo sublimar com leveza. Um amontoado de centenas de quilos de metal que preciso carregar comigo a todo lugar que eu vá, que me faça pensar duas vezes antes de andar para onde e tanto quanto quero? Os significados sociais são vis e vulgares, mas é fácil ignorá-los; difícil é abrir mão da aventura e da independência do passo arbitrário, da carona improvisada, do transporte público. Este é um passo que tomo com desgosto; mais um pulmão da minha criança que eu asfixio.

• Aprender francês. Chega de protelar a minha lista de línguas. O francês sempre foi o primeiro do rol, e foi com ele que mais me relacionei nos últimos anos; ainda assim, esses interregnos sempre foram insuficientes. É hora de me dedicar coerentemente. Será útil para textos — culinária, gastronomia, literatura — e, quem sabe, para futuras viagens.

• Parar de fumar. Comecei a deixar o cabelo crescer ao mesmo tempo em que comecei a fumar; se finalmente cortei o cabelo, então o próximo passo natural é deixar de fumar. Os benefícios da abstinência enfim parecem-me ultrapassar os prazeres da nicotina: recuperar fôlego e paladar é bem-vindo aos exercícios e à gastronomia; poupar a minha saúde é subtrair uma das preocupações daqueles a quem quero bem e querem-me bem; eliminar mais este vício é necessário à renegação do espírito chão, paliativo, escapista de minha adolescência. (Sim, eu vivo um bildungsroman. Não vivemos todos?)

• Desistir da humanidade. Este é um projeto que mantenho inacabado há anos. Preciso entrar em paz e harmonia com o fato de que não há como lidar com a humanidade (a totalidade da raça humana), a multidão (as pessoas anônimas que constituem os caminhos de nossa vida física) ou o convescote (as pessoas poucas e próximas que formam o nosso cotidiano). Só então poderei seguir o meu próprio caminho, sem guardar rancor ou ranger os dentes, em paz e legítima solidão: eu não depender de ninguém e ninguém depender de mim. Isso é importante para a minha tristeza, serenidade e boa vontade. Não faço ideia do que esse item significará na prática, mas sei quais serão as suas consequências dentro de mim.

12 comentários » | 091118Qua0738 | anotações, autodigestões

Moi, je m’appelle

Algo que sempre me abandonou intrigado é o fato de que as pessoas conhecem-se umas às outras.

O algoritmo é suficientemente simples. (1) Pessoa A denota sua existência, por meio de qualquer mensagem cujo destinatário seja não-específico ou, sendo específico, não-B. (2) Pessoa B recepta a mensagem e, por ela sendo agradada ou instigada, direta ou indiretamente emite uma nova mensagem, no mesmo contexto, que possa ser receptada por pessoa A. (3) Pessoa A repete o passo 2, e assim por diante.

Conhecer pessoas é vantajoso, social e biologicamente. É através desses procedimentos que o ser humano adquire informação e experiência, troca favores e influências, sacia sua carência de expressão, dá início ao ritual de acasalamento.

Ainda assim, e aqui junto-me à maioria, mesmo que eu apresente-me às pessoas quando necessário ou interessante, nunca deixo de considerar tal tarefa extremamente constrangedora; e, na vasta maioria das vezes, elas não percebem ou não dão a perceber tal constrangimento. Ao contrário do que algumas pessoas insistem em provar, é suficientemente fácil estruturar um comentário que seja simultaneamente cordial e inofensivo — mas sempre resta a encapsulação a ser manufaturada.

Meus estudos de linguística são limitados, mas aqui me refiro ao que chamo de “sobremensagem”: a declaração da finalidade da mensagem, que é (ou sou paranoico demais) subentendida por ambas partes. Isto é, a parte da mensagem que satisfaz a pergunta implícita do receptor: “Por que você está me dizendo isso?”, ou “por que você está falando comigo?”

O problema é que não há resposta que caiba, com conforto, em um cenário socialmente não-desajeitado. Excetuando-se as situações em que a intervenção é necessária ou autoexplicativa (”cuidado, o chão está molhado e escorregadio”, “onde você comprou esse par de luvas?”), não há mensagem cuja sobremensagem seja razoável ou adequada. “Eu estou me pronunciando porque julgo minhas opiniões mais importantes do que elas realmente são”? “Você está em uma posição que pode me favorecer e talvez eu tenha algo a oferecer em troca”? “Eu quero conhecer você a fim de verificar a possibilidade de um dia termos filhos”?

Óbvio: as sobremensagens são constante e exatamente essas. Mas não é possível que eu seja a única pessoa a me incomodar com isso. Mesmo nos casos em que a finalidade é puramente egoísta (e portanto supostamente autojustificada), não há desculpa. A pessoa que se gaba de suas habilidades tem tanta razão quanto a pessoa que odeia a outra e, em vez de optar pelo silêncio, gratuitamente o expressa em voz alta.1

1 Notar que este ou qualquer outro blog está a salvo do cadafalso: ouve quem quer, lê quem sabe. Somos pessoa A, com destinatários não-específicos; o problema sempre recai sobre pessoa B. Mas está claro que não peço vosso silêncio.

A finalidade última geralmente é clara: “Quero algo, e pretendo consegui-lo através do verbo ou através de algo a que o verbo conduzirá.” Mas, a partir do momento em que almejamos um significado telúrico para além do meramente biológico, será essa finalidade desejável ou apropriada?

2 comentários » | 091116Seg0537 | digressões

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