Incúria

Alguns dias atrás, recebi em minha caixa de entrada um e-mail promocional divulgando alguns produtos eletrônicos. Destaco o seguinte trecho.

“Compre um televisor Full HD e ganhe um adaptador USB para internet sem fio.” O preço das televisões em questão era “a partir de R$ 2.066,18″. Como um adaptador USB para internet sem fio pode ser comprado pela internet e entregue na porta de sua casa, sem taxa de frete, por R$ 13, o anúncio dizia o equivalente a “compre conosco e tenha um desconto de 0,62% ou menos.” Estou certo de que ao menos algumas televisões foram vendidas através desse argumento.

Há uma ilustração mais colorida: os cabos de HDMI da marca “Monster” são famosos por serem caros; ao realizar uma pesquisa rápida, constato que o preço no país chega a R$ 2.699,00, pelos cabos de maior comprimento, mas a média orbita os R$ 200-300. A questão tem como mérito o fato de que esses cabos são digitais, recheados de fibra óptica — e, em oposição aos antigos cabos analógicos, os cabos digitais não sofrem degradação de sinal e não estão sujeitos a interferências.

Isso quer dizer que o sinal digital, sendo binário, simplesmente é transmitido ou não é transmitido. Funciona ou não funciona. (Mais ou menos como não há a possibilidade de você tomar meio-choque elétrico com um fio desencapado.) De modo geral, não existe um “cabo digital melhor” ou um “cabo digital pior”. É por isso que um cabo de HDMI sem marca pode ser comprado por menos de R$ 8.

Anedotalmente, já foram feitos alguns testes informais comparando os cabos de áudio Monster e alguns cabides de metal desenrolados. As pessoas nunca conseguem distinguir um do outro.

Os contra-argumentos são claros: tudo isso é muito técnico; o consumidor comum não é capaz de acompanhar todos os avanços tecnológicos.

Mentira. Não é questão de excesso de tecnicidade ou falta de tempo. O sistema de injeção eletrônica dos automóveis, por exemplo, existe no mercado brasileiro há mais de trinta anos — e a maioria das pessoas não faz ideia de sua função ou funcionamento básico. Ainda assim, eu me lembro de este ser um “diferencial de vendas” na época em que começou a ser popularizado.

Da mesma forma, se o vendedor de televisões diz que seu produto tem recurso X, o consumidor só quer se dar ao trabalho de ficar impressionado e comprar o produto, sem entender nada, mesmo que recurso X seja apenas um nome diferente para recurso Y de sua televisão atual, ou mesmo que ela nunca vá utilizar tal recurso. Os consumidores mais ousados perguntarão: “O que é recurso X?” Se o vendedor começar a explicar o que é recurso X, o consumidor ficará irritado. Ele não quer saber o que é; ele quer saber para que serve.

Esse é um nível de pragmatismo que nos aproxima muito dos cães adestrados: “Eu não quero que você me explique como ou por quê. Eu quero que você me diga apenas o que eu devo fazer e se eu vou ganhar um biscoito.” É importante frisar isto: o antônimo de “aprender” é “ficar quieto, abaixar a cabeça e obedecer.” Ou, piormente, “erguer a cabeça e fingir saber.”

Em outra ocasião, constatei que uma colega de trabalho trouxe café de casa. Disse ela: “Quer? Está adoçado com açúcar orgânico.” Perguntei qual era a diferença entre o açúcar comum e o orgânico. Não me soube responder. Quando insisti na pergunta, disse que a versão orgânica é mais saudável. Perguntei: como?, por quê?, quem disse? Minha curiosidade era legítima: quais são as diferenças físico-químicas entre o açúcar comum e o açúcar orgânico? De que modo essas diferenças afetam a gente? Quem aferiu as consequências? Mas não foi minha curiosidade que mais me incomodou — foi a facilidade com que ela admitiu pagar mais caro por algo que ela simplesmente não entende.

Mas é claro que as pessoas não entendem. Entender e aprender exigem tempo, e elas estão ocupadas demais… assistindo àquela televisão com recursos incríveis e incompreensíveis.

4 comentários » | 110217Qui1515 | digressões

A praia

Há algo na normalidade que me… qual é o verbo adequado? “Assombrar”?

1. m.q. sombrear (”dar sombra”, “cobrir[-se] de sombra”) 2. tornar triste, sombrio 3. considerar pouco valioso; desmerecer, menosprezar 6. ter sentimento de medo, terror 7. causar espanto ou admiração a; maravilhar(-se), admirar(-se), pasmar(-se)

Assombrar. Há algo na normalidade que me assombra.

Eu passei o último Natal na casa da sogra de um amigo, G. O bom humor, a casual inconveniência, os presentes, as normas, os sorrisos e as preocupações, toda a boa vontade e todos os bons sentimentos. Não foi o desconhecimento e o cansaço que os desconhecidos causam — as pessoas quase todas me eram conhecidas: em particular G. e sua irmã, a quens tanto estimo.

Na altura da festividade, eu não me dei conta do assombro. Foi uma boa experiência. Determinada consciência só me atingiu quando eu folheava o álbum de fotos de uma amiga minha e querida, C. As fotos dela, em companhia de sua família, parentes e amigos, tanta luz e sol e alegria pura… Imaginei-me junto e engasguei. Que sentimento estranho.

Até onde me recordo, nunca neguei a luz. Eu conheço o riso selvagem: o trincar dos dentes em sangue. Eu conheço a doce melancolia: o funeral no dia mais bonito da primavera. O penhasco do yang e a fronteira que ele faz com o yin. “Bella ruggente pena, seren come la rabbia di amar”, é o que sempre diz a música.

Mas esta normalidade: esta mormidão que talvez seja ainda mais autêntica do que seus extremos, é algo que eu não sei se um dia posso — ou quero — tocar em legitimidade. Me obrigo a reforçar: não é a alegria, tampouco são as pessoas, tampouco as datas em si. Cada um desses ícones já foi por mim desconstruído e reconstruído, e gosto de me acreditar ao soslaio das convenções.

Não recrimino, mas igualmente não me sinto peremptoriamente seduzido ou bem-vindo. É como o sentimento produzido quando dois conhecidos se encontram, mas nenhuma das duas partes consegue se lembrar de quem é o outro. Aproximar-se ou afastar-se? Cumprimentar com um abraço ou ignorar em desdém?

Talvez seja, justamente, um dos efeitos colaterais do descolamento da humanidade. Não é comportamento antissocial, mas quiçá associal. E há, em meus olhos, o assombro como aquele nos olhos da criança que, arrastada pela maré, dá-se conta de que não vai mais conseguir voltar à praia.

2 comentários » | 110131Seg1510 | autodigestões

Tecnologia em movimento

Caso você seja o CEO de uma empresa de transporte intermunicipal de passageiros através de fretamento eventual de ônibus, por gentileza leia este post com atenção.

As viagens de ônibus, ainda que muito consideravelmente mais perigosas do que as viagens de avião, trazem consigo um número de vantagens, seja pelo preço, seja pela praticidade. Mas trata-se de um equilíbrio fino, que não deveria ser tão facilmente desafiado pela distração.

É preciso admitir: as pequenas comodidades proporcionadas pelas viagens de ônibus melhoraram muito no último meio século: toaletes, ar-condicionado, bancos reclináveis, luz de leitura. Mas já viramos o século, e há outras melhorias que podem ser implementadas nas viagens; melhorias que, se fossem adotadas por qualquer empresa, ela teria a mim e muitos outros como clientes pelo resto da vida.

Algumas delas seguem esta frase.

• Tomadas. Em um ônibus em que todos os 44 lugares estejam ocupados por pessoas com laptops ligados, nós temos um consumo aproximado de 2,5 KWh, ou metade de um chuveiro elétrico. Eu não tenho acesso aos números precisos, mas estou certo de que o ônibus gera eletricidade suficiente para suprir a situação extrema de demanda. (E caso alguém pergunte: pranchas de cabelo têm um nível similar de consumo ao dos notebooks.)

• Wi-fi. Hoje em dia, não há uma viagem em que eu não encontre ao menos uma pessoa com um laptop e meia dúzia com smartphones dentro do ônibus. “Internet gratuita” não é má estratégia. Aliás, nada com a palavra “gratuito” no meio é má estratégia.

• Rádio. Entradas individuais para fones de ouvido para escutar à “estação de rádio” do ônibus, munida de uma seleção de músicas agradáveis, com opção para tocar um despertador nas paradas e na chegada. Não é preciso fornecer os fones, muito obrigado.

• SMS. Peça o número do telefone celular de todos os passageiros. Passe a enviar SMSs para avisá-los do horário de embarque, o tempo estimado de viagem, a chegada e a partida dos pontos de parada, ou até mesmo para avisar que o banheiro do ônibus está ocupado. Não é totalmente injusto devolver alguns centavos para pessoas que pagam R$ 50-100 por passagem.

• Luz de leitura. As luzes precisam ser melhor calibradas: elas ainda deixam muita luz vazar ao passageiro do lado, e seu foco não precisa ser tão amplo para se ler um livro ou uma revista. Se serve de incentivo, os brincos que permanecerem perdidos podem ser derretidos e vendidos em barras de ouro e prata.

• Cadeados bluetooth. Como serviço opcional, a pessoa pode baixar (via WAP, 3G ou wi-fi) um programa em seu telefone celular (Symbian, Blackberry ou iPhone) que permite abrir e fechar um cadeado bluetooth para a bagagem de mão. Alternativamente, cadeados com combinações numéricas já ajudariam a deixar os passageiros mais tranquilos durante as paradas, onde já vi pessoas serem furtadas.

Sinta-se à vontade para usar o título do post como slogan.

3 comentários » | 101102Ter1558 | digressões

Frases de ônibus

Foi aqui que atropelaram um motoqueiro ontem. Ele estava impedido. Desculpe incomodar sua viagem. Você já reparou que ela sempre dá um jeito de não fazer o relatório? Hoje até que foi bem tranquilo, tirando a menina da fratura exposta. Quer apanhar? Ela é uma falsa. Tenho várias músicas aqui, nem eu sei. É a vontade de Deus. É aquele rapaz que fala engraçado. Eu sempre esqueço de tomar. Mas a memória já pifou, quem mandou trocar. Se eu quisesse te trair, já teria te traído. Quando vem, vêm dois de uma vez. Eu tirei várias fotos com ele, depois do show. Um é dois, três é cinco. Eles sempre atrasam o pagamento. E a novela? Daí ela voltou e partiu para cima da piranha. Você sabe que eu sou louca. Viu que ela está grávida? Já cansei de ver. Minha neta mora no Japão. Passou na televisão. Eu tenho sete gatos lá em casa. Mas eu deixei a chave com o porteiro. E aquele vestido? Depois eu te mando por email. Eu, hein? Nesse trânsito, prefiro pegar o carro só de fim de semana. Fim de semana vai chover. Eu trabalhava ali, logo depois do fórum. Semana passada inteira passei doente. É culpa desse prefeito, que só rouba do povo. Ele é muito feio. Que perigo… Está tudo parado. Está calor demais. Está caro. Calaboca. Você vai aparecer lá de noite? Fala para o cliente me esperar. Não dá para confiar nele. Quanto foi o jogo? Já falei para não deixar o folder na mesa dele. Mandaram ele embora. Passei o dia inteiro na fila. Adivinha com quem ela está saindo. Tem que tomar chá de limão e alho. Vai descer, motorista! É sempre assim.

3 comentários » | 101012Ter0514 | anotações

A verdade da maldade

Às vezes eu concordo quando as pessoas dizem que o mundo não é muito justo. Os bons, os sinceros, os esforçados, justamente aqueles que mais merecem ter os seus esforços recompensados, tantas vezes são os mais prejudicados — tornam-se vítimas dos maus, dos que trapaceiam, dos que pegam atalhos e se aproveitam dos outros.

Cerca de três séculos atrás, alguém disse que “é melhor sofrer um mal do que cometê-lo, e mais feliz ser enganado do que não confiar.” No fim, não faz muita diferença: ambos comportamentos têm as suas respectivas vantagens e desvantagens. Ademais, as pessoas muito raramente mudam — não é como se uma pessoa boa fosse conseguir, tão casualmente, passar a cometer maldades, e vice-versa.

A desvantagem dos maus é a de que, ao perseverar seu mau comportamento, ele está legitimizando um mundo pior e mais perigoso para si mesmo e para aqueles a quem ele quer bem. O “mundo dos espertos” é um mundo primitivo, sem moral, como o mundo dos lobos.

A vantagem dos bons… Bem, há a satisfação pessoal em atender à sua vocação. (Que o amigo não se engane: tudo que fazemos deliberadamente é por puro egoísmo. Mesmo se somos altruístas, meramente o é porque queremos atender ao nosso altruísmo.) Qualquer bom comportamento tem função exclusivamente local e momentânea; a experiência me conta que as pessoas têm muita dificuldade em aprender a ser mais gentis ou honestas, então são raros os atos de bondade que fazem eco.

Também três séculos atrás, outro alguém disse que “para que o mal triunfe, basta que os homens bons não façam nada.” Esse é um aforisma muito simbólico: ele demonstra, de um modo muito natural a nós, que há um desequilíbrio entre o bem e o mal. E eis o porquê.

A maldade é eficiente.

Se os ladrões existem, é porque roubar compensa — da mesma forma como as corretoras de seguros só existem porque elas cobram um valor proporcionalmente maior do que a chance de você sofrer um acidente e o custo subsequente. Os ladrões intuitivamente avaliam as chances de eles serem presos, e roubam conforme a estatística permite. Se a chance de ser preso ao cometer um roubo fosse de 100%, ninguém roubaria.

Da mesma forma, o lobo sabe que atacar uma raposa para roubar sua presa vale a pena, mas que fazer o mesmo com um urso seria tolice. É uma avaliação de risco e recompensa; e seres humanos buscam o mesmo corte de eficiência. É assim que funciona na natureza, e é ao mundo natural que nos referimos quando dizemos que “o mundo é dos espertos”.

Maldade, que aqui equivalho a malícia ou esperteza, é nada além do lobo atacando a raposa. É o lobo burlando a regra “quem caçou, tem o direito à sua presa.” E não é mera questão de fome ou sobrevivência; se a raposa tivesse um coçador automático de barrigas, ele também a atacaria.

Agora só resta avisar aos ladrões que nós estamos tentando evoluir para além da natureza. Para um mundo onde se ganha infinitamente, em vez de só ganhar muito, quando todos são bons.

3 comentários » | 101003Dom2112 | digressões

Burr_

Duas advertências. Primeiro: este texto, assim como qualquer outro texto, não consegue ler-se sozinho; ele requer a discricionariedade do leitor. Nenhum dos casos aqui discutidos aplica-se ou quer-se aplicar à totalidade dos representantes de seu respectivo gênero. Onde se lê ou se subentende “todo/a”, recomenda-se substituir por “parcela significativa dos/as, não constituindo necessariamente percentagem maior do que cincoenta ponto zero.” Segundo: há uso de figuras de linguagem.

Certa vez, um colega de trabalho me disse o seguinte, em palavras quase estas: “Mulher é um bicho burro mesmo. Não se interessa por política, por economia, por engenharia.” Eu ri.

É claro que mulheres são burras.

Elas são burras porque, em algum ancestral momento de cada uma das civilizações patriarcais do mundo, um homem definiu que “burro” é “toda pessoa que não se interessa por assuntos típicos às idiossincrasias masculinas.” Isso equivale a dizer, por extenso: “se você se interessa pelas tolas, ainda que por vezes úteis, compulsividades de nossos varões, podemos reconhecê-lo inteligente; caso contrário, você é uma pessoa inepta.”

Pergunte a qualquer morango qual é a melhor cor do mundo; de que modo a resposta dele será diferente de “vermelho”? Em sua resposta, por si só, não há problema; o problema está em quando as outras frutas passam a acreditar no que o morango diz. Mas não poderia ser diferente: como em qualquer guerra, os conceitos são firmados pela parte dominante — ou, como diz o adágio dos que sussurram e sorriem, pela parte que pensa ser dominante.

Os homens também são burros em muitos dos assuntos típicos às idiossincrasias femininas — e, ao contrário do que aconteceria em uma situação inversa, muitos deles não são capazes de apreender tais assuntos em sua integralidade mesmo quando adequadamente adestrados. Em mais contextos do que eles imaginam, eles são de fato chamados de “burro”; só não é essa a palavra que as mulheres geralmente usam.

O mesmo, mais discretamente, acontece com a palavra “fútil”. Fofoca, seja sobre celebridades ou não, é fútil. Vaidade, tanto na forma de moda quanto na de estética, é fútil. Visitar a sogra aos domingos é fútil. Dançar é fútil. De que modo não está claro que a lista da futilidade foi escrita por um homem, ainda que tenha sido assinada por todos? Se uma parcela significativa das mulheres (não constituindo necessariamente percentagem maior do que cincoenta ponto zero) resolvesse revogar o rol… nós teríamos uma aliteração.

A meu ver, duas das soluções são diferentes e, infelizmente, ambas exigem a colaboração dos homens.

A primeira é enxergar para além da futilidade, considerando que nada do que agrada o ser humano deixa de ter alguma função. Por exemplo, fofocar (ou, mais divertidamente, “coscuvilhar”) fomenta um jogo-tessitura de poderes, vínculos e influências que serve a muitas funções sociais — como esboçar a mediana moral de determinado grupo, monitorar o grau de confiança e cooperação interpessoais ou meramente fortalecer o senso de comunidade.

A segunda é entender que a palavra “fútil” tem tanta valoração moral quanto a palavra “azul” ou “gergelim” — a partir de onde a frase “tal pessoa é fútil” conteria tanta recriminação quanto a frase “tal pessoa tem olhos castanhos.” Como em muitas outras situações, não é apropriado indulgenciar-se em excessos; mas algumas colheres de leviandade, não raro, alimentam o nosso poder de criação. Outros elogios podem ser feitos à futilidade.

Portanto, não é meu medo tornar-me burro ou fútil — pois essas são propriedades que só existem em metade do paradigma, e de que me serve algo que tem meia-existência? —, mas tornar-me mau ou indolente — esses, sim, pecados de humanidade inteira.

1 comentário » | 100916Qui1618 | digressões

Coração de ouro

Qual é a profissão mais antiga do mundo? Se consultarmos a Classificação Brasileira de Ocupações, elaborada pelo Ministério do Trabalho e do Emprego, é a profissão de código 5198: profissional do sexo. Por que ela não é a de código 0001, eu não faço ideia.

Apesar de sua tradição e ancestralidade, algumas pessoas ainda se surpreendem com o fato de que prostituir-se não é considerado um crime no Brasil; ilegal é induzir alguém à prostituição ou manter estabelecimento destinado a tal fim (artigos 227 a 230 do Código Penal Brasileiro). Eu também me surpreendo com a legislação: afinal, a sociedade brasileira, não obstante suas constantes ostentações de licenciosidade, é extremamente puritana. Permitir a prostituição em um país declarado cristão é um contrassenso.

Mas é preciso lembrar que nem sempre foi assim. O Código de Hammurabi, escrito há mais de três milênios e meio, já protegia os direitos das prostitutas — que, no exercício de sua profissão, geralmente eram solteiras e, portanto, vulneráveis em uma sociedade patriarcal. No primeiro século depois de Cristo, o imperador Constantino I converteu-se e instituiu o cristianismo em todo o império romano, passando a recriminar todo comportamento não-cristão, incluindo o culto aos outros deuses.

Pois, afinal, alguns historiadores afirmam que as primeiras prostitutas da civilização humana foram as sacerdotisas dos templos da deusa da fertilidade — conhecida por diferentes nomes em diferentes regiões: Astarte, Ishtar, Inanna — e, assim, supostamente recolhiam dinheiros em troca de relações, para a manutenção do templo. Heródoto chega a descrever que toda mulher babilônica, ao menos uma vez em sua vida, era obrigada a comparecer em um dos templos de Inanna e oferecer seu corpo ao primeiro estrangeiro que lhe jogasse uma moeda no colo. O próprio Velho Testamento chama as prostitutas de “kedeshah”, cujas raízes etimológicas remetem à palavra “sagrado”.

Mas esses trechos podem ser ignorados. Por mais fossem difundidos os rituais de hierogamia — ou “casamento sagrado”, em que uma sacerdotisa, representando a deusa, e um rei, representando o deus, faziam coisas —, as liturgias eram impregnadas de pompa e religiosidade. A finalidade quintessencial da prostituição é muito mais primitiva, instintiva do que isso. Podemos perguntar a qualquer macaco.

Mais de uma pesquisa constatou que as fêmeas dos macacos se prostituem — elas cedem favores sexuais (isto é, relações sem a finalidade de reprodução, não estando em seu período fértil) em troca de benefícios pessoais. Em um dos experimentos, assim que os macacos aprenderam a usar moedas para comprar comida dos cientistas, eles também passaram a pagar as suas fêmeas para poder usufruir de seus dotes símios. Logo depois do intercurso, elas corriam para trocar as moedas por doces.

1 comentário » | 100906Seg0642 | exposições

Sortidos V

• Em alguns países, os novilhos são obrigados a engolir um potente e compacto íma, que permanecerá em seu corpo pelo resto da vida: assim, todo objeto de metal que eles possam ingerir quando adultos, como pregos ou farpas de arame, são retidos em seu rúmen ou retículo. Isso evita perfurações e inflamações.

• Em 1937, quando o coronel Logan contatou Milton Hershey para conversarem sobre o desenvolvimento de um chocolate especial para acompanhar as rações militares das forças armadas dos Estados Unidos, um dos requisitos era de que o doce tivesse “um gosto um pouco melhor do que o de uma batata cozida.” O coronel tinha receio de que as tropas consumissem o chocolate casualmente, em vez de esperar por uma situação de emergência. O chocolate era informalmente chamado de “a arma secreta de Hitler”. Uma das versões seguintes ficou conhecida como “ração da disenteria”.

• “Ghoti” é uma palavra artificial da língua inglesa; ela é utilizada para demonstrar, como muitos estudantes já observaram, a inconsistência entre a grafia e a pronúncia da língua. O fonema /ʃ/ (que nós lusófonos conhecemos como “som do xis”) pode constar de onze formas diferentes em palavras inglesas. “Ghoti”, pronuncia-se-lo “fish”: “gh” como em “tough”, “o” como em “women”, “ti” como em “nation”. Analogamente, “ghoughpteighbteau”, pronuncia-se-lo “potato”.

• Existe um famoso site exclusivamente dedicado a encontros extramaritais; no dia seguinte ao Dia das Mães, o número de mulheres que se cadastram nele é dez vezes maior do que a média. Um número ainda maior se cadastra no dia depois do Dia dos Namorados. É claro que apenas uma percentagem consome a infidelidade, mas eis, homem casado: seja romântico.

• Embora tenha alcançado razoável fama mundial ao longo das últimas décadas, poucas pessoas sabem o que é alcatrão. “Alcatrão” é o nome que se dá às resinas escuras e espessas obtidas da destilação destrutiva de matérias orgânicas, e que antigamente se usava para impermeabilizar barcos. Por exemplo, se colocamos lenha de pinheiro em um forno sem oxigênio, temos no final carvão, terebintina (um solvente) e alcatrão. Apesar de suas propriedades carcinogênicas, o alcatrão ainda é utilizado como aditivo, mormente como corante, em doces e bebidas. Ele também aparece em xampus anticaspa. Já o “alcatrão” do cigarro não é alcatrão verdadeiro; trata-se de um apelido ao resíduo resultante (e também carcinogênico) da queima do cigarro.

• Em sociologia, o efeito Mateus descreve um dos mais prementes paradigmas humanos: o de que os ricos ficam ainda mais ricos, e os pobres ficam ainda mais pobres. Seu nome deve-se a Mateus 25:29, “porque a todo o que tem, dar-se-lhe-á, e terá em abundância; mas ao que não tem, até aquilo que tem ser-lhe-á tirado.”

• Aliás, em nenhum trecho da Bíblia é mencionado que o fruto proibido por Tetragrammaton e consumido por Adão e Eva era u’a maçã. Alguns comentários posteriores afirmam que era uma uva. Na pintura de Michelangelo, no teto da Capela Sistina, o fruto proibido é um figo. Na Europa oriental, não é difícil encontrar pessoas que o considerem o tomate. Os hebreus são os mais versáteis: desde o trigo, passando pela alfarroba (uma vagem que substitui bem o cacau na produção do chocolate), até o marmelo já foram candidatos.

1 comentário » | 100903Sex1517 | anotações

A raposa nossa de cada dia

Certo estudo demonstrou, certa vez e sem querer, que grupos sociais tendem a isolar e/ou expulsar indivíduos altruístas — ou seja, seres humanos ostracizam aqueles que contribuem ao bem coletivo mais do que usufruem dele. Os “bonzinhos” são vistos com maus olhos porque estabelecem padrões de comportamento que não são desejáveis pela maioria. Obviamente.

Imaginamos; se até mesmo um ambiente inofensivo e conformado como o do funcionalismo público é socialmente competitivo, muito mais hão de ser os outros. E competir com um generoso significa dar ainda mais e usufruir ainda menos do que ele: que tarefa ingrata e onerosa.

Esse experimento social confirma as nossas tantas anedotas de pessoas que, com a língua dura e braço mole, criticam as outras que estão de fato se esforçando para melhorar a situação geral (ainda tal esforço seja em direção equivocada), sem que tal reprimenda seja acompanhada de qualquer atitude. Desdenhar o esforço alheio justifica e salvaguarda a nossa tão humana preguiça.

A bem de exemplo, em determinada fábrica de componentes elétricos, os operários mais produtivos eram discriminados pelos seus colegas, deles recebendo apelidos pejorativos e sendo verbalmente provocados, muito embora não recebessem qualquer distinção de seus supervisores. Dos quatro funcionários mais eficientes, três eram os mais impopulares; o quarto adulterava os seus relatórios de produtividade.

Esses procedimentos psicossociais dão-se através de um fenômeno chamado “dissonância cognitiva”, o sentimento desconfortável que sentimos ao manter duas ideias contraditórias.

É de senso comum e tradicional — e aqui vale notar que senso comum nem sempre corresponde a bom senso — que a disposição ao trabalho é louvável e desejável. No entanto, a maioria das pessoas não está disposta a trabalhar, ou, ao menos, a trabalhar muito. Essa contradição traz um sentimento de culpa que se traduz em abuso, hostilidade, menosprezo ou, por vezes, mera e infantil birra.

Em outro experimento, dois grupos de crianças foram deixadas em uma sala com diversos brinquedos. Foi-lhes dada a liberdade de brincar com todos os brinquedos, exceto uma grande e cobiçada escavadeira de plástico amarelo; a criança que brincasse com ela receberia um castigo. Ao primeiro grupo foi dito que a punição seria severa; ao segundo, que a punição seria branda. Nenhuma delas tocou na escavadeira.

Em um segundo momento, as mesmas crianças foram deixadas na sala, e dessa vez foi-lhes dito que elas poderiam brincar com tudo, inclusive a escavadeira. As crianças da punição branda foram as que menos brincaram com ela, por mais que a sua vontade fosse tanta quanto a das crianças do outro grupo. Para justificar sua inação perante uma punição que era branda, e não severa, elas resolveram mentalmente que a escavadeira não era tão interessante assim.

Então nós temos uma questão complicada. Como fazer com que nós vejamos as uvas como elas realmente são, se é mais fácil vê-las verdes?

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Pausa

Breve pausa.

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