Mais uma seleção de termos de busca que os visitantes usam para, deliberadamente ou não, encontrar este site. Os posts que eles acabam encontrando raramente resolvem as suas dúvidas; então esta é minha tentativa de, ainda que tardiamente, amenizar a situação para os talvez-futuros visitantes.
Nesta edição, buscas dignas de nota dizem respeito a sonhos. Os meus visitantes sonham com: osso de sapo, formiga gigante, galinha apodrecida, tigre lambendo sua perna, dente de criança pregado na parede.
• para que serve a água tônica no cappuccino
Nunca ouvi falar de água tônica com cappuccino (e é claro que experimentarei na próxima oportunidade), mas água com gás é servido ao lado de uma xícara de espresso porque o primeiro acentua os sabores do segundo.
É preciso distinguir o sabor do gás carbônico da sensação que as bolhas causam: é o gás carbônico que alfineta a língua; as bolhas meramente fazem cócegas. Até o ano passado, pensávamos que eram as bolhas que alfinetavam a língua — mas então descobrimos que, em uma câmara pressurizada, onde os refrigerantes não fazem bolhas, continuamos sentindo o gás: agora, além de doce, salgado, azedo, amargo e saboroso (umami), nós também temos o carbonado1.
1 A lista é, na realidade, muito maior. Temos quimiorreceptores específicos para cálcio, ácidos graxos (ou seja, gordura), taninas (adstringência, ou a sensação de “boca amarrada” causada pela banana verde, por exemplo), e metalicidade (como sangue).
Os receptores do dióxido de carbono estão localizados juntamente aos receptores do sabor amargo. Limpando-os com a água e estimulando-os com o gás, estamos melhores preparados para sentir o sabor do café.
• a petala de rosa tem testosterona
Não. Plantas não produzem hormônios animais. Suas células comunicam-se umas com as outras utilizando fitormônios — que, apesar do nome, são moléculas de natureza completamente diferente.
Consumo ou aplicação de rosas, seja sob qual método for escolhido, não estimula a produção de testosterona nos humanos. (Mas algumas outras plantas aparentemente inibem a produção de dihidrotestosterona, responsável por perda de cabelo e aumento da próstata nos homens.)
• duas profissoes antigas que não se utilizam mais ultimamente
O estenógrafo — como é conhecido o operador do estenótipo — servia para transcrever sessões ou reuniões de natureza formal, como vemos nos filmes de tribunal. O estenótipo é um teclado de acorde, parecido com uma máquina de escrever com bem menos teclas: para digitar algumas letras, é preciso pressionar simultaneamente dois ou mais botões. Um bom digitador consegue registrar 60-80 palavras por minuto; um bom estenógrafo, 300; um bom gravador, infinitas.
E o computador não existe mais. Computadores eram as pessoas contratadas única e exclusivamente para a finalidade de realizar longos e tediosos cálculos matemáticos e transcrições de dados técnicos. Seu ápice ocorreu entre os séculos XIX e XX, extinguindo-se com o advento do computador moderno. Muitas mulheres ocupavam a função, e por causa delas os primeiros programadores de computadores foram do sexo feminino.
Escribas e telegrafistas hoje não são mais necessários, tampouco os acendedores de postes de luz — que antigamente eram compostos por velas ou óleos. Leiteiros. Telefonistas. Vendedores de enciclopédias. Bons limpadores de chaminés também estão cada vez mais difíceis de serem encontrados.
• alguém poderia me dizer um nome bem legal para eu colocar na minha sorveteria e doceria
Doceria: Terceiro Círculo (referente ao Inferno de Dante; é nesse que queimam os glutões), Kallisti (“à mais bela” em grego), A Aveleira (ou Avellana, a espécie da aveleira), ou Sharkara (simplesmente “açúcar” em sânscrito).
Sorveteria: Neigeuse (“nevada” em francês), Nanuq (“urso polar” na língua dos inuit), Bóreas (o deus grego do vento norte), Lete (“esquecimento”, novamente em grego, como o rio subterrâneo da mitologia) ou, sei lá, A Vaca Frígida.
Doceria e sorveteria: Calamelo (que, embora a palavra não tenha muito impacto visual, ela é bem engraçada de se falar), Verglas (a camada de gelo que se forma sobre a superfície ou em volta dos objetos, nos lugares onde há inverno de verdade), Cande-Leite (“cande” vindo de “khanda”, outra palavra sânscrita para “açúcar”), ou A Casa da Cupidez.
Outros nomes que considerei são: A Vaca Polar (ou, alternativamente, A Vaca de Pantufas), Verriondez (que tem um significado muito peculiar), Leite Leite (seguindo uma moda de nomenclatura de grife de década-para-cá), Fino Chocolate Social Clube.
• eu quero o significado da palavra isopor no hebraico
Eu poderia trapacear e dizer que a palavra “isopor” não significa nada no hebraico. Ou eu poderia dizer que isopor, em hebraico, é “פוליסטירן”, e deixar por isso… mas daí eu também estaria sendo preguiçoso.
Pronuncia-se “polistirn”, uma vez que advém diretamente do inglês “polystyrene”. (”Poliestireno” para nós lusoparlos.) A não ser que você esteja se referindo à caixa de isopor onde se guardam as garrafas de cerv, digo, vinho — caso no qual não vou poder ajudar. L’chayim!
• na fisica em qual velocidade eu não seria capaz de ver a paisagem?
Nosso campo de visão horizontal não-periférico abrange aproximadamente 130º. Assumindo que o olho humano consegue distinguir mais de 100 quadros por segundo e escolhendo um objeto a aproximadamente quatro quilômetros de distância, esse mesmo objeto precisaria se mover a 61.200 km/h para que sequer o percebêssemos piscar em nossa vista.
Okay. Agora podem jogar fora essa resposta; há inúmeros problemas nela. Não há como delimitar claramente o limite da nossa capacidade de autofoco. A medida de “quadros por segundo” não faz muito sentido quando aplicado à visão humana. Há movimentos involuntários e recálculos automáticos que permitem o reconhecimento de objetos a ângulos e velocidades muito variados. Não definimos sequer o que significa “ver”.
O olho humano é um aparato fenomenal, pronto para se adaptar a infinitas situações — e nós ainda estamos criando instrumentos capazes de medir e testar seu potencial: vide a resposta sobre a água tônica.
• sorvete sapo com gotas de chocolate
Não sei se eu vou aceitar… Mas obrigado mesmo assim.