A raposa nossa de cada dia

Certo estudo demonstrou, certa vez e sem querer, que grupos sociais tendem a isolar e/ou expulsar indivíduos altruístas — ou seja, seres humanos ostracizam aqueles que contribuem ao bem coletivo mais do que usufruem dele. Os “bonzinhos” são vistos com maus olhos porque estabelecem padrões de comportamento que não são desejáveis pela maioria. Obviamente.

Imaginamos; se até mesmo um ambiente inofensivo e conformado como o do funcionalismo público é socialmente competitivo, muito mais hão de ser os outros. E competir com um generoso significa dar ainda mais e usufruir ainda menos do que ele: que tarefa ingrata e onerosa.

Esse experimento social confirma as nossas tantas anedotas de pessoas que, com a língua dura e braço mole, criticam as outras que estão de fato se esforçando para melhorar a situação geral (ainda tal esforço seja em direção equivocada), sem que tal reprimenda seja acompanhada de qualquer atitude. Desdenhar o esforço alheio justifica e salvaguarda a nossa tão humana preguiça.

A bem de exemplo, em determinada fábrica de componentes elétricos, os operários mais produtivos eram discriminados pelos seus colegas, deles recebendo apelidos pejorativos e sendo verbalmente provocados, muito embora não recebessem qualquer distinção de seus supervisores. Dos quatro funcionários mais eficientes, três eram os mais impopulares; o quarto adulterava os seus relatórios de produtividade.

Esses procedimentos psicossociais dão-se através de um fenômeno chamado “dissonância cognitiva”, o sentimento desconfortável que sentimos ao manter duas ideias contraditórias.

É de senso comum e tradicional — e aqui vale notar que senso comum nem sempre corresponde a bom senso — que a disposição ao trabalho é louvável e desejável. No entanto, a maioria das pessoas não está disposta a trabalhar, ou, ao menos, a trabalhar muito. Essa contradição traz um sentimento de culpa que se traduz em abuso, hostilidade, menosprezo ou, por vezes, mera e infantil birra.

Em outro experimento, dois grupos de crianças foram deixadas em uma sala com diversos brinquedos. Foi-lhes dada a liberdade de brincar com todos os brinquedos, exceto uma grande e cobiçada escavadeira de plástico amarelo; a criança que brincasse com ela receberia um castigo. Ao primeiro grupo foi dito que a punição seria severa; ao segundo, que a punição seria branda. Nenhuma delas tocou na escavadeira.

Em um segundo momento, as mesmas crianças foram deixadas na sala, e dessa vez foi-lhes dito que elas poderiam brincar com tudo, inclusive a escavadeira. As crianças da punição branda foram as que menos brincaram com ela, por mais que a sua vontade fosse tanta quanto a das crianças do outro grupo. Para justificar sua inação perante uma punição que era branda, e não severa, elas resolveram mentalmente que a escavadeira não era tão interessante assim.

Então nós temos uma questão complicada. Como fazer com que nós vejamos as uvas como elas realmente são, se é mais fácil vê-las verdes?

Comente » | 100829Dom1820 | exposições

Pausa

Breve pausa.

Comente » | 100817Ter0702 | comunicações

Você está filosofando

Não será surpresa para ninguém que muitas — muitas — palavras são mal-utilizadas. Seu uso cotidiano, em vez de ampliar e enriquecer a cognição de seus interlocutores, banaliza e deturpa o sentido original de modo a encaixá-lo como mero sinônimo.

“Filosofia” é o melhor exemplo que me consta. Arrogo-me dizer que a maioria das pessoas não faz ideia muito clara do que seja filosofia, exceto que ela trata de questões transcendentais: Deus existe?, qual é o sentido da vida?, com quantos paus se faz uma canoa? Talvez por puro pedantismo, mas seu uso vulgar me incomoda um pouco. “Você está filosofando” é o que dizem quando escutam alguém divagar sobre veleidades metafísicas, e aí está o primeiro ponto: a disciplina da filosofia trata de muito além da metafísica.

A epistemologia, por exemplo, tenta definir o conceito de conhecimento (assim como o próprio conceito de conceito) e suas respectivas implicações. A ontologia explora a existência das coisas e sua interação com a realidade. A lógica, a ética e a estética também são áreas relevantes na filosofia e pesquisam acerca de si próprias.

Sou velho o suficiente para nunca ter assistido a uma aula de filosofia no ensino médio, mas posso imaginar que a iniciativa, por pior que possa ser executada, tenha sido ótimo-intencionada. Já vi mais de uma pessoa entrar em um curso superior de filosofia pensando tratar-se de uma eterna mesa de boteco onde se conversa idilicamente sobre a vida e o universo — para então trancar a matrícula após o primeiro semestre. Por quê?

Porque a filosofia é sistemática. Ela não é um aglomerado de epifanias aleatórias e indulgentes; ela é uma série de estruturas lineares e exigentes. Para filosofar, não basta ter ideias malucas — é preciso ter disciplina, perseverança e amor ao rigor do raciocínio coerente. É como tocar piano, praticar tênis ou construir ônibus espaciais. Ninguém constrói um ônibus espacial por acidente. A maioria das pessoas, nem mesmo de propósito.

Conversar a respeito da vida não é filosofar — é divagar, discutir e deblaterar, e todos os seres humanos fazem isso: é natural, é inevitável e, quando bem feito, é até desejável. Mas quem filosofa são os filósofos. Toda ideia pode ser dissecada, reorganizada sobre uma mesa, ter sua anatomia analisada e então dar frutos a novas ideias. Se esse procedimento despe-a de toda sua beleza, então não estamos falando de filosofia — mas de poesia.

1 comentário » | 100805Qui0645 | exposições

Para bellum

Eu faço uso da gradação de palavras. Para alguns, isso é uma autojustificativa que, quando não inútil, é perniciosa no sentido de autorizar nossa negligência — é, afinal, muito fácil nos satisfazer dizendo que estamos cansados quando na realidade estamos preguiçosos –, mas, a mim, essa sintonização fina é necessária para apreender minha interação com o mundo.

Tenho para mim que não posso odiar. O ódio é uma entrega, um sacrifício muito maior do que merece a maioria das coisas e pessoas. É alimentar com os mais macios filés a serpente que nos engolirá, e nada nem ninguém merece tanto ser destruído que valha minha autodestruição.

Então eu não odeio, mas me incomodo com situações. Se algo é mais do que incômodo, é desagradável. Se mais do que me desagrado, desgosto. Se meu desgosto não é suficiente, vêm raiva e rancor. Só então, quando todas medidas foram poucas e parcas, é que eu quebro a casca do ovo do ódio.

O incômodo é uma pequena brisa, quase como brincar-de-não-fazer-diferença. Muitas vezes sequer eu percebo quais são as coisas que me incomodam, e é preciso certa iteração para saltar ao próximo estágio.

O desgosto ainda não me repele, mas já tenho muito bem lúcido em minha mente: “Eu não gosto disso.” Se não me exigir qualquer esforço evitar a coisa desgostosa, evito; caso contrário, deixo estar. É este o limiar entre o sentimento e a atitude, o qual muitos chamam de “resignação”, mas eu chamo de “zona desmilitarizada”.

A raiva já me busca deliberadamente fugir da coisa enraivecedora. Eu ainda considero este sentimento saudável: por ser ele responsável a evitar constrangimentos mas ainda assim não me induzir à autopeçonha. É muito fácil, de igual modo, confundir esta raiva particular com o medo genérico, mas não me permito equivocar — movimentos mais bruscos são apropriadamente respondidos.

Então sedimenta o rancor, a bile que me amarga, o esmeril que afia minhas facas. É neste aposento que são desenhados os planos e os maus pensamentos, ainda que não sejam colocados em prática. Aqui há poucos moradores, e todos falam sussurrando.

E com ódio… com ódio, eu prejudico sem provocação.

Comente » | 100728Qua0507 | anotações

Coisas que preciso explicar toda vez que digo ser coreano

Há uma determinada conversa que eu já tive dezenas de vezes ao longo da vida.

“Mas é a primeira vez que vejo um japonês com nome de árabe.”
Eu sou filho de coreanos. Meu nome é bíblico. Muitos nomes bíblicos foram e são utilizados por cristãos, judeus, muçulmanos, ateus e agnósticos.

O Calebe bíblico foi, junto a Josué, um dos doze espias enviados para bisbilhotar a Terra Prometida; os dois foram os únicos a manterem sua fé e otimismo.

”Mas o que a Bíblia tem a ver com japonês?”
Metade da Coreia do Sul é cristã. Lá também está a maior congregação cristã do mundo: a igreja pentecostal de Yoido tem mais de 830 mil fiéis, com sete cultos por domingo, traduzidos em dezesseis línguas. A congregação de Yoido não está sozinha: das cinco maiores do mundo, quatro estão na Coreia. Se eles não são cristãos, ao menos se esforçam bastante.

E eu sou filho de coreanos.

”Japonês ou coreano, não é tudo a mesma coisa?”
É claro que todos os países do outro lado do mundo sempre guerrearam entre si, particularmente para consolidar seus territórios e soberanias, mas pergunte para qualquer asiático: o Japão é um caso à parte.

Por diversos motivos, o Japão sempre tentou invadir e conquistar tanto a China como a Coreia. Os combates e as mortes foram mais do que suficientes nos últimos séculos, mas dois incidentes relativamente recentes se destacam.

Em 1937, o exército imperial japonês invadiu Nanquim, então capital da China. Durante seis semanas, eles sistematicamente mataram cerca de 260 mil pessoas — dentre as quais 20 mil meninas e mulheres que, após serem violentadas, eram mortas com uma baioneta atravessando sua parte mais íntima. (A maior dor-de-cabeça para os diplomatas japoneses.)

E, durante a Segunda Guerra Mundial, manteve-se em funcionamento a Unidade 731: os experimentos médicos do nazismo não chegaram aos pés dela. Quase todos os pacientes eram chineses ou coreanos.

Então um coreano ou um chinês ser chamado de “japonês” é mais ou menos como um brasileiro ser chamado de “argentino” — exceto que, neste caso, o argentino matou o avô e estuprou a avó do brasileiro. Naturalmente, são erros de gerações passadas, desculpas já foram pedidas, e escolas ocidentais não lecionam história oriental… Mas pode ter certeza de que há muitas diferenças.

”Mas é que vocês são todos tão parecidos!”
Os europeus também são todos parecidos. Os africanos também são todos parecidos. Existem mais de 350 mil espécies diferentes de coleópteros, mas nós chamamos todos de “besouro”. “Besouro grandão”, na melhor das hipóteses. Tudo é muito parecido para quem não conhece o suficiente.

Como nota de rodapé, vale mencionar que a vasta maioria dos ocidentais é uma pessoa só, para os orientais.

”Ah… Mas você come carne de cachorro?”
Não.

Há muitas respostas possíveis para essa pergunta. Algumas delas envolvem explicar como, por que e quais coreanos comem carne de cachorro, ou elucidar que se trata de uma prática impopular (assim como, digamos, incesto), ou citar que outros países também a consomem.

Muitos coreanos (ou chineses, ou vietnamitas, ou suíços) não se importam com a pergunta, mas para mim ela é um pouco mais complicada.

Mais alguma dúvida?

8 comentários » | 100722Qui0317 | comunicações

Troia

Todo mundo conhece, ou ao menos recorda menção, da Guerra de Troia, de seu cavalo de madeira e o advento da expressão “presente de grego”, mas pouca gente se lembra do início mitológico da maior guerra da literatura grega. (Mesmo porque ninguém tem registro de seu motivo histórico.)

Tudo começou com um casamento.

Tétis era uma das cinquentas nereidas, filha de Proteus. Algumas profecias diziam que um dos filhos de Tétis seria maior do que seu pai. Zeus, que eventualmente visitava-a em sua intimidade, preferiu não arriscar e casou-a com Peleu, rei da ilhota de Égina. (É claro que, com essa manobra, ele também evitaria facilmente o pagamento de uma pensão, além de amenizar em um milímetro o ciúme justificadamente doentio de Hera.)

E ao casamento Zeus convidou todos os deuses… menos uma. Como eles, os gregos, que praticamente inventaram todas as estruturas de trama e enredo imaginaram que deixar de convidar uma deusa para uma festa poderia dar certo? Ainda mais quando a deusa desconvidada era Éris — também conhecida como Discórdia.

Éris, desimportando-se com o fato de não haver sido convidada, compareceu à festa, mas foi impedida de entrar por Hermes, a mando de Zeus. Levemente enfurecida, da porta ela lançou adentro uma maçã dourada onde se lia o seguinte e singelo dizer: “καλλίστῃ”. E partiu.

As mulheres já sabem e os homens se enchem de calafrios — na maçã estava escrito: “À mais bela.” Tétis bem a quis, e era ela que estava prestes a se casar, mas três deusas adiantaram-se em direção: Hera, Atena e Afrodite. Nenhuma vaidade permitiria que uma delas cedesse o prêmio a outra, e por isso elas pediram ou exigiram que Zeus decidisse qual delas merecia o Pomo da Discórdia.

Zeus, que de tolo nada ou muito pouco tinha, disse: “Páris decidirá.”

Páris era filho de Príamo, rei de Troia. As profecias diziam que Páris traria a ruína à sua terra natal, e somente o seu sacrifício impediria Homero de escrever a Ilíada. Sem coragem para fazê-lo, Príamo pediu que Agelau, um pastor, cumprisse a tarefa; Agelau abandonou o bebê em uma montanha, onde ele foi amamentado por uma ursa. Nove dias depois, descobrindo que Páris ainda estava vivo, ele o trouxe consigo e o criou em segredo.

Um dia, Páris, o príncipe-pastor, declarou que daria uma coroa de ouro a qualquer touro que conseguisse derrotar o seu touro campeão. Ares (também conhecido como “o Deus da Guerra”) resolveu aceitar o desafio, e transformou-se em um touro. Coitadinho do touro de Páris. O pequeno pastor não hesitou em dar a coroa de ouro ao vencedor, e foi assim que ele surgiu na memória de Zeus em momento tão conveniente.

As três deusas foram conduzidas até o Monte Ida, onde, após banharem-se nas fontes, fizeram suas ofertas ao príncipe para dele conquistar o favor. “Tornar-te-ás o rei de toda a Europa e Ásia”, disse Hera. “Terás destreza em toda guerra e batalha”, disse Atena. “Serás amado pela mais bela mulher do mundo”, disse Afrodite, deixando suas vestes caírem e oferecendo sua nudez a Páris. Os registros históricos dizem que não foi uma escolha difícil.

O problema é que a mais bela mulher do mundo, àquela época, era Helena — que já era casada com Menelau de Esparta. Esparta? Alguém já ouviu falar de Esparta?

A beleza de Helena era conhecida por toda Hélade e, portanto, ela teve muitos pretendentes quando chegou na idade de casar. Tíndaro, seu pai, aconselhado pelo sempre sagaz Odisseu, fez cada candidato jurar solenemente vir em defesa daquele que Helena escolhesse.

Ao ter a esposa raptada, Menelau invocou o juramento, e todos eles vieram. E quem eram os pretendentes? Agamenon, rei de Micenas, Ájax (tanto o rei de Lócrida quanto o de Salamina), Diomedes, rei de Argos, Pátroclo, rei de Opunte, Idomeneu, rei de Creta, dentre outros. Ou seja, era a Grécia Antiga inteira contra Troia.

Então a guerra começou.

Este trecho também mostra como o mythos grego é extremamente abundante. O resumo, por mais prolixo que seja, é senão um centésimo da primeira ponta de um único evento. Então talvez seja por isso que as novelas televisivas não me têm tanta atenção; eu já acompanho as gregas.

1 comentário » | 100716Sex0413 | exposições

Carta dos leitores, terceira edição

Mais uma seleção de termos de busca que os visitantes usam para, deliberadamente ou não, encontrar este site. Os posts que eles acabam encontrando raramente resolvem as suas dúvidas; então esta é minha tentativa de, ainda que tardiamente, amenizar a situação para os talvez-futuros visitantes.

Nesta edição, buscas dignas de nota dizem respeito a sonhos. Os meus visitantes sonham com: osso de sapo, formiga gigante, galinha apodrecida, tigre lambendo sua perna, dente de criança pregado na parede.

• para que serve a água tônica no cappuccino
Nunca ouvi falar de água tônica com cappuccino (e é claro que experimentarei na próxima oportunidade), mas água com gás é servido ao lado de uma xícara de espresso porque o primeiro acentua os sabores do segundo.

É preciso distinguir o sabor do gás carbônico da sensação que as bolhas causam: é o gás carbônico que alfineta a língua; as bolhas meramente fazem cócegas. Até o ano passado, pensávamos que eram as bolhas que alfinetavam a língua — mas então descobrimos que, em uma câmara pressurizada, onde os refrigerantes não fazem bolhas, continuamos sentindo o gás: agora, além de doce, salgado, azedo, amargo e saboroso (umami), nós também temos o carbonado1.

1 A lista é, na realidade, muito maior. Temos quimiorreceptores específicos para cálcio, ácidos graxos (ou seja, gordura), taninas (adstringência, ou a sensação de “boca amarrada” causada pela banana verde, por exemplo), e metalicidade (como sangue).

Os receptores do dióxido de carbono estão localizados juntamente aos receptores do sabor amargo. Limpando-os com a água e estimulando-os com o gás, estamos melhores preparados para sentir o sabor do café.

• a petala de rosa tem testosterona
Não. Plantas não produzem hormônios animais. Suas células comunicam-se umas com as outras utilizando fitormônios — que, apesar do nome, são moléculas de natureza completamente diferente.

Consumo ou aplicação de rosas, seja sob qual método for escolhido, não estimula a produção de testosterona nos humanos. (Mas algumas outras plantas aparentemente inibem a produção de dihidrotestosterona, responsável por perda de cabelo e aumento da próstata nos homens.)

• duas profissoes antigas que não se utilizam mais ultimamente
O estenógrafo — como é conhecido o operador do estenótipo — servia para transcrever sessões ou reuniões de natureza formal, como vemos nos filmes de tribunal. O estenótipo é um teclado de acorde, parecido com uma máquina de escrever com bem menos teclas: para digitar algumas letras, é preciso pressionar simultaneamente dois ou mais botões. Um bom digitador consegue registrar 60-80 palavras por minuto; um bom estenógrafo, 300; um bom gravador, infinitas.

E o computador não existe mais. Computadores eram as pessoas contratadas única e exclusivamente para a finalidade de realizar longos e tediosos cálculos matemáticos e transcrições de dados técnicos. Seu ápice ocorreu entre os séculos XIX e XX, extinguindo-se com o advento do computador moderno. Muitas mulheres ocupavam a função, e por causa delas os primeiros programadores de computadores foram do sexo feminino.

Escribas e telegrafistas hoje não são mais necessários, tampouco os acendedores de postes de luz — que antigamente eram compostos por velas ou óleos. Leiteiros. Telefonistas. Vendedores de enciclopédias. Bons limpadores de chaminés também estão cada vez mais difíceis de serem encontrados.

• alguém poderia me dizer um nome bem legal para eu colocar na minha sorveteria e doceria
Doceria: Terceiro Círculo (referente ao Inferno de Dante; é nesse que queimam os glutões), Kallisti (“à mais bela” em grego), A Aveleira (ou Avellana, a espécie da aveleira), ou Sharkara (simplesmente “açúcar” em sânscrito).

Sorveteria: Neigeuse (“nevada” em francês), Nanuq (“urso polar” na língua dos inuit), Bóreas (o deus grego do vento norte), Lete (“esquecimento”, novamente em grego, como o rio subterrâneo da mitologia) ou, sei lá, A Vaca Frígida.

Doceria e sorveteria: Calamelo (que, embora a palavra não tenha muito impacto visual, ela é bem engraçada de se falar), Verglas (a camada de gelo que se forma sobre a superfície ou em volta dos objetos, nos lugares onde há inverno de verdade), Cande-Leite (“cande” vindo de “khanda”, outra palavra sânscrita para “açúcar”), ou A Casa da Cupidez.

Outros nomes que considerei são: A Vaca Polar (ou, alternativamente, A Vaca de Pantufas), Verriondez (que tem um significado muito peculiar), Leite Leite (seguindo uma moda de nomenclatura de grife de década-para-cá), Fino Chocolate Social Clube.

• eu quero o significado da palavra isopor no hebraico
Eu poderia trapacear e dizer que a palavra “isopor” não significa nada no hebraico. Ou eu poderia dizer que isopor, em hebraico, é “פוליסטירן”, e deixar por isso… mas daí eu também estaria sendo preguiçoso.

Pronuncia-se “polistirn”, uma vez que advém diretamente do inglês “polystyrene”. (”Poliestireno” para nós lusoparlos.) A não ser que você esteja se referindo à caixa de isopor onde se guardam as garrafas de cerv, digo, vinho — caso no qual não vou poder ajudar. L’chayim!

• na fisica em qual velocidade eu não seria capaz de ver a paisagem?
Nosso campo de visão horizontal não-periférico abrange aproximadamente 130º. Assumindo que o olho humano consegue distinguir mais de 100 quadros por segundo e escolhendo um objeto a aproximadamente quatro quilômetros de distância, esse mesmo objeto precisaria se mover a 61.200 km/h para que sequer o percebêssemos piscar em nossa vista.

Okay. Agora podem jogar fora essa resposta; há inúmeros problemas nela. Não há como delimitar claramente o limite da nossa capacidade de autofoco. A medida de “quadros por segundo” não faz muito sentido quando aplicado à visão humana. Há movimentos involuntários e recálculos automáticos que permitem o reconhecimento de objetos a ângulos e velocidades muito variados. Não definimos sequer o que significa “ver”.

O olho humano é um aparato fenomenal, pronto para se adaptar a infinitas situações — e nós ainda estamos criando instrumentos capazes de medir e testar seu potencial: vide a resposta sobre a água tônica.

• sorvete sapo com gotas de chocolate
Não sei se eu vou aceitar… Mas obrigado mesmo assim.

1 comentário » | 100713Ter1359 | interações

Os signos

“Sério? Você é a primeira pessoa que eu conheço que faz isso.” Isso equivale a: “Dentre todas as pessoas de que me lembro e de que apreendi um mínimo número de hábitos, você é a primeira que apresenta esse desvio comportamental.”

Nós funcionamos através de padrões. São os padrões que nos permitem identificar e isolar experiências novas e com elas aprender. (Ou praticar discriminação racial. A faca que corta o queijo também corta o dedo.)

Conforme conhecemos as pessoas, colhemos delas uma lista de características possíveis, que nos permitem encaixá-las em categorias. “Dentre as pessoas, há aquelas que gostam de montanhas-russas. Há aquelas que nunca experimentaram. Há aquelas que são indiferentes. Há aquelas que desgostam.” Se conhecemos mais, abrimos mais um leque: “Dentre as pessoas que desgostam de montanhas-russas, há aquelas que se incomodam com as emoções intensas. Há aquelas que preferem manter o controle de tudo. Há aquelas que calculam erroneamente o risco. Há aquelas que perderam a família em um acidente de montanha-russa e juraram vingança contra todos os parques de diversões do mundo.”

Ao longo do tempo, refinamos os modelos. “Dentre as pessoas, há aquelas que, sendo suficientemente oblíquas e estando envolvidas em situações onde elas não podem agir sem denotarem ter sido afetadas de algum modo, vão tomar uma atitude que pode consistir em (a) fazer com que a parte responsável pareça ser uma pessoa que não está envolvida na situação original e que a ninguém será socialmente adequado confirmar hipóteses, (b) trazer à tona uma resolução que…”, e assim por diante. Depois depuramos ainda mais, até chegarmos em um nível tão fino, arraigado e justaposto que não conseguimos distingui-lo em palavras ou pensamentos.

Em seu nível mais grosseiro, a compreensão e a aceitação desses algoritmos desembarca nos diversos tipos de preconceito — capazes de fagocitar noções tão diversas quanto contraditórias e aninhá-las no conforto do não-discernimento. Em seu nível mais sublimado, encontramos a verdadeira engenharia social — campo em que tem adentrado, para minha surpresa nos últimos anos, a economia e sua teoria dos jogos. Em algum lugar entre os dois, temos a astrologia.

Fique claro que eu não tenho confiança na predestinação ou na formatação psíquica das pessoas de acordo com o dia em que elas nasceram, e muito menos nas leituras horoscopais que toda mídia apresenta. Na prática, eu sou o que se convencionou chamar de “cético”. Mas isso não me impede de fazer bom uso de misticismo: acredito que os signos nos sirvam de parâmetro para dimensionar e avaliar determinados gestos.

Assim como os arcanos maiores do tarô ou o I Ching, a astrologia tenta, deliberadamente ou não, abranger os principais arquétipos humanos e suas situações típicas. Eles não se referem diretamente às pessoas, ao menos no modo como os entendo, mas apresentam as superestruturas e suas ramificações básicas. São um lembrete do bom senso; um aide-mémoire dos padrões.

Isto é, se queremos precisar qual é o tom, a matiz daquela blusa verde, não a colocamos ao lado de azul ou vermelho. Comparamo-na a outros verdes. Analogamente, se queremos entender por qual motivo teve aquele canceriano, a lembrança de outros cancerianos pode-nos ajudar a entendê-lo — caso assim os tenhamos categorizado.

Ademais, signos dão nomes a atitudes. Nome é consciência. Se a pessoa não conhece a palavra “timidez” e seu significado, ela terá muito mais dificuldade em superar seus empecilhos normossociais, assim o deseje. Os signos cedem longas descrições das nem sempre tão notáveis idiossincrasias e bobagens humanas, facilitando-no-las seu pinçamento. A sumariar: signos são parâmetros. Basta cuidarmo-nos do lodo da desídia e da resignação.

E não menciono seu puro valor de entretenimento.

2 comentários » | 100706Ter0801 | digressões

Nova temporada

Como em todo início de nova temporada, cabe recapitular (brevemente, para alívio dos amigos que ainda e porventura visitem o site) os episódios passados, a fim de situar os outros.

Eu sou uma pessoa. Isso é importante de se dizer na internet.

Há uma frase de Bertrand Russell, um filósofo e matemático inglês, com que muito me identifico — e, independente de ela se aplicar a mim ou não, talvez o fato de eu me lembrar dela neste momento diga algo a meu respeito: “Três paixões, simples mas sobrepujantemente potentes, governaram a minha vida: o anseio pelo amor, a busca pelo conhecimento, e uma piedade insustentável pelo sofrimento da humanidade.”

É isso que acontece comigo. Mas eu não diria “conhecimento”; é uma palavra muito forte, e eu me importo com palavras. Enquanto Russell diz “buscar o conhecimento”, eu digo “folhear a revista do mundo, como quem espera a vez no barbeiro.” (“The grim barber”, se eu houvesse escrito este post em inglês.)

Sou um pedante não-profissional. Isso quer dizer que, eventualmente, faço uso de mesóclise, crases arcanas, e avantesmas vernaculares. Eu distinguo Maria de “Maria”. Eu escrevo “estadunidense”, em vez de “norte-americano”, expressão esta que pode incluir os canadenses. “Humidade”, em vez de “umidade”! Por favor, não tentem me salvar; sou um caso perdido.

Contrariando minha natureza humana, eu não comento a respeito de tudo: os textos encontrados aqui orbitam somente meio satélite de assuntos para além das divagações tópicas: ciências, filosofia, tecnologia, artes (aí inclusas moda, culinária, e música de qualidade questionável), línguas, jogos e adjacências. Os assuntos principais podem ser encontrados ao lado, na nuvem de etiquetas — ou, em bom afegão, “tag cloud”. Há também, como este post denuncia, muita coisa sobre mim mesmo.

Nenhum assunto é tabu, mas muitos não me chamam a atenção. Dificilmente serei visto falando a respeito de política, dos torneios ingleses de badminton ou das efemérides notáveis.

São bem-vindos amigos e desconhecidos. Inimigos, onde estejam eles, não são mal-vindos; têm trânsito livre e irrelevante. Todos estão convidados a se manifestar a respeito de qualquer coisa, inclusive através do que se convencionou chamar de “crítica destrutiva”. A única exigência é uma réstia de bons modos para com os outros visitantes. Os comentários podem ser deixados anonimamente, então é cordialidade não abusar.

Restantemente, é isso. Qualquer dúvida, basta me contatar.

1 comentário » | 100701Qui1934 | autodigestões, comunicações, interações

Por que desapareço?, ou A casa em que não se respira

Hoje meu blog completa 162 dias sem qualquer atualização — então é natural que o primeiro post pós-interregno queira servir ao papel de justificativa. (O ser humano, que o saibam, é um ser de justificativas.)

Muitas pessoas superestimam o meu metabolismo. Ele não é lento. Ele é le-e-e-en…

A questão é que eu o fiz assim. Nos seis primeiros sétimos de minha até hoje vida, a angústia era suficiente para fazer vergar minha alma e sombra. Essa angústia (ou, mais precisamente, esse pathos), ensinou-me muitas coisas, inclusive a encontrar metáforas bonitas, mas, se hoje estou vivo, é porque dela me livrei e dela nos livramos.

Exceto que eu não me livrei do pathos: apenas o muito mal domestiquei. Exceto que ele não foi muito mal domesticado: apenas o muito mal fiz cochilar. É como um tigre que mantemos sedado na sala de estar, em um estado forçado de hibernação. Quando ele despertar, e de fato desperta, continuará a picotar pessoas.

O equilíbrio é muito fino e, para que a luta não seja desigual, eu desacelero meu tempo. “Não me dê uma tarefa impossível”, eu digo, “mas me dê uma tarefa impossível e tempo para executá-la.” Nada, excetuando-se grama verde e céu azul, tem-me mais sabor e tenuidade do que tempo.

Agora, e não depois, digo que a definição “tempo” não é precisa. Por falta de uma palavra que bem represente a justaposição de tempo, memória, tensão1 e concentração, eu uso os termos “tempo espiritual” ou “tempo abstrato”, em oposição ao tempo terreno, concreto. A quem entenda, trata-se da memória RAM de meu espírito.

1 Engraçadamente, a palavra “tensão” tampouco corresponde com muita destreza ao que me refiro. Por “tensão”, entendo algo próximo de “reserva de tensão por obrigação de cumprimento”, ou a modalidade mais suave de preocupação que reservamos, em antecipação, àquilo a que nos propomos, declaradamente ou não, realizar. Mas isso resvala em logomaquia.

Qualquer coisa, pelo que mais-seja trivial, consome parte de meu tempo espiritual. De colocar a carteira no bolso antes de sair de casa até engendrar a dominação do mundo, tudo passa pelo filtro e deixa sedimento. Isso, somado ao sono tão sensível do tigre na sala, faz com que eu pise em ovos de sussurro com sapatos de buzina.

Nessa estrutura tão frágil, os primeiros a serem afastados — e salvaguardados, posso dizer quando mais amargo — são as pessoas amigas. “Tens em mim o teu quinhão de tempo concreto e, faltando-me tempo abstrato, deste último terás tua reserva temporariamente negada.” (Ou: “Estás em meu disco rígido; serás temporariamente removido da memória RAM.”) Essa é a parte em que reforço meus pedidos de desculpas aos amigos: nenhum de vós é-me importante de modo diretamente proporcional ao meu aparente descaso.

Logo após vêm as tarefas de ordem não-obrigatória, como o blog. Então é isso e esse o motivo pelo qual, de tempos em tempos, desapareço.

E para onde vamos, a partir daqui? Ainda tenho muito o que sedar, e todos os dias têm os seus sussurros, mas caminhamos e, portanto, seguimos adiante. Agradeço pela compreensão e retorno à programação normal.

… to.

8 comentários » | 100628Seg1404 | comunicações

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