E-mails incompletos que nunca serão enviados: Amiga
Eu disse que escreveria, não disse?
Por mais que seja perigoso, como muitas outras coisas em você, eu escrevo. É muito fácil dar sangue para as suas rosas, sufocar dois ou três calores em sua pele macia, confundir o ar e os gestos de sua alma com a fumaça de meu cigarro. Com a fumaça deste quarto escuro. Suave e diáfano é o limiar onde as crianças dormem e os gemidos rasgam. Mas não é disso que eu quero falar — são mais do que palavras, como sempre.
Este é o segredo que muitas temem e muitos ignoram: quando uma mulher é genuinamente afeiçoada, seus cabelos não importam; as mechas são meros símbolos, e não a coisa simbolizada. Algumas fazem mau uso desse artifício, mas você conhece melhor os traços que a desenham. É um ruído maior do que raiva ou valentia; é o seu espírito reconhecendo a si mesmo.
É assim que pisa o primeiro reconhecimento. A franja tropeça e engana-se sobre a sua fronte, tal como da flama a ponta que, pura e provocada, conduz o incêndio na casa de todos os sonhos. Na casa de todos os sonhos, onde tudo é armamento — e você é a arma perfeita. As sobrancelhas finas como respiração de gato; os olhos desconfiados como cadafalsos-em-espelhos; os lábios rosados de veneno e marrasquino.
Amor, lembra que o coração da beleza chama-se simplicidade, e olha no espelho: as suas linhas não se emaranham. Serenidade dá nome a um só véu hiemal — de contorno tão sutil e delicado, que mesmo um soluço de anjo seria demasiado vulgar para lhe acariciar.
E seu nariz. Seu nariz…
(…)
E, no fim, é disto que eu desconfio. Nós nos oferecemos, um ao outro, algo além do que os nossos orgulhos poderiam comprar. O mesmo orgulho e vaidade que faz a raposa desdenhar e morrer sozinha. Não tem importância: quando a raposa morrer, aproximo de esguelha e, fechando os olhos do mundo, deixo lágrima e carinho.
1 comentário » | 100118Seg2008 | anotações
