Incúria
Alguns dias atrás, recebi em minha caixa de entrada um e-mail promocional divulgando alguns produtos eletrônicos. Destaco o seguinte trecho.
“Compre um televisor Full HD e ganhe um adaptador USB para internet sem fio.” O preço das televisões em questão era “a partir de R$ 2.066,18″. Como um adaptador USB para internet sem fio pode ser comprado pela internet e entregue na porta de sua casa, sem taxa de frete, por R$ 13, o anúncio dizia o equivalente a “compre conosco e tenha um desconto de 0,62% ou menos.” Estou certo de que ao menos algumas televisões foram vendidas através desse argumento.
Há uma ilustração mais colorida: os cabos de HDMI da marca “Monster” são famosos por serem caros; ao realizar uma pesquisa rápida, constato que o preço no país chega a R$ 2.699,00, pelos cabos de maior comprimento, mas a média orbita os R$ 200-300. A questão tem como mérito o fato de que esses cabos são digitais, recheados de fibra óptica — e, em oposição aos antigos cabos analógicos, os cabos digitais não sofrem degradação de sinal e não estão sujeitos a interferências.
Isso quer dizer que o sinal digital, sendo binário, simplesmente é transmitido ou não é transmitido. Funciona ou não funciona. (Mais ou menos como não há a possibilidade de você tomar meio-choque elétrico com um fio desencapado.) De modo geral, não existe um “cabo digital melhor” ou um “cabo digital pior”. É por isso que um cabo de HDMI sem marca pode ser comprado por menos de R$ 8.
Anedotalmente, já foram feitos alguns testes informais comparando os cabos de áudio Monster e alguns cabides de metal desenrolados. As pessoas nunca conseguem distinguir um do outro.
Os contra-argumentos são claros: tudo isso é muito técnico; o consumidor comum não é capaz de acompanhar todos os avanços tecnológicos.
Mentira. Não é questão de excesso de tecnicidade ou falta de tempo. O sistema de injeção eletrônica dos automóveis, por exemplo, existe no mercado brasileiro há mais de trinta anos — e a maioria das pessoas não faz ideia de sua função ou funcionamento básico. Ainda assim, eu me lembro de este ser um “diferencial de vendas” na época em que começou a ser popularizado.
Da mesma forma, se o vendedor de televisões diz que seu produto tem recurso X, o consumidor só quer se dar ao trabalho de ficar impressionado e comprar o produto, sem entender nada, mesmo que recurso X seja apenas um nome diferente para recurso Y de sua televisão atual, ou mesmo que ela nunca vá utilizar tal recurso. Os consumidores mais ousados perguntarão: “O que é recurso X?” Se o vendedor começar a explicar o que é recurso X, o consumidor ficará irritado. Ele não quer saber o que é; ele quer saber para que serve.
Esse é um nível de pragmatismo que nos aproxima muito dos cães adestrados: “Eu não quero que você me explique como ou por quê. Eu quero que você me diga apenas o que eu devo fazer e se eu vou ganhar um biscoito.” É importante frisar isto: o antônimo de “aprender” é “ficar quieto, abaixar a cabeça e obedecer.” Ou, piormente, “erguer a cabeça e fingir saber.”
Em outra ocasião, constatei que uma colega de trabalho trouxe café de casa. Disse ela: “Quer? Está adoçado com açúcar orgânico.” Perguntei qual era a diferença entre o açúcar comum e o orgânico. Não me soube responder. Quando insisti na pergunta, disse que a versão orgânica é mais saudável. Perguntei: como?, por quê?, quem disse? Minha curiosidade era legítima: quais são as diferenças físico-químicas entre o açúcar comum e o açúcar orgânico? De que modo essas diferenças afetam a gente? Quem aferiu as consequências? Mas não foi minha curiosidade que mais me incomodou — foi a facilidade com que ela admitiu pagar mais caro por algo que ela simplesmente não entende.
Mas é claro que as pessoas não entendem. Entender e aprender exigem tempo, e elas estão ocupadas demais… assistindo àquela televisão com recursos incríveis e incompreensíveis.
4 comentários » | 110217Qui1515 | digressões
